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‘Os agentes penitenciários não podem fazer nada’

09/01/2017 8:37 AM / Alfredo Henrique / Atualizado em 09/01/2017 8:37 am

Uma agente penitenciária da Grande São Paulo, que não terá o nome publicado por questões de segurança, pois a unidade onde ela tenta trabalhar é controlada por uma facção criminosa, afirmou que “quando começa uma guerra (entre criminosos), agentes não podem fazer nada. Os profissionais do sistema (penitenciário) geralmente não contam com o apoio da diretoria (das unidades)”. Ela crê que, em breve, criminosos de organizações rivais promovam um banho de sangue, dentro e fora de presídios, em retaliação à chacina ocorrida no presídio Anísio Jobim, no Amazonas, no primeiro dia do ano. “Vão querer fazer manifestação de força”, disse.

A mulher trabalha há 25 anos no sistema carcerário de São Paulo e afirmou que “nunca” viu uma situação como a ocorrida na Região Norte. Durante o motim, 56 detentos de uma facção paulista foram mortos e decapitados por membros de uma organização rival, que briga para controlar o comércio de drogas no Amazonas. “Como dezenas de funcionários vão dar conta de milhares de presos?”, questionou.

Segundo vídeos que a reportagem teve acesso, feitos por celulares de criminosos e que são impublicáveis, alguns presidiários tiveram as cabeças arrancadas, orelhas e olhos cortados, além dos corações arrancados e depositados dentro de baldes plásticos. “Os inimigos fazem (seus rivais) comerem orelhas e olhos de comparsas, antes de todos serem mortos. Sei de casos em que chegaram a assar órgãos em churrasqueiras e, depois, comeram as partes assadas dos inimigos”.

“Muito ódio pela concorrência”

A agente acrescentou que as facções “concorrentes” da organização criminosa paulista nutrem um “grande ódio” pelos rivais, por conta do esquema agressivo de negócios do “comando” (que conta com membros em todos os estados do Brasil, segundo registros da própria facção apreendidos pelo 4º DP de Guarulhos e consultados pela reportagem). “Quando matam alguém do grupo de São Paulo, geralmente ocorrem comemorações”.

Um dos vídeos mostra uma fileira de cabeças fora dos corpos em que supostos membros da facção do Norte “prestam contas” a eventuais mandantes, dando os nomes de cada morto decapitado. São mostradas nas imagens cinco cabeças de prováveis membros da facção paulista. “É tudo do comando (de São Paulo)”, afirma o operador do celular que bate uma faca na testa de cada cabeça arrancada.

A cultura do “risca faca”

O especialista em segurança pública e privada Jorge Lordello afirmou que a facção paulista deu continuidade a um movimento de organização criminosa inaugurada no Rio de Janeiro, que “aprendeu” com presos políticos a se articular em “células”, no final da década de 1970, na prisão Cândido Mendes, Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ). “Diferentemente das máfias existentes no mundo, que começaram nas ruas, as facções brasileiras se iniciaram dentro dos presídios. No Brasil começaram a se organizar para garantir direitos dos presos, até que as drogas, como a cocaína, foram introduzidas no cotidiano das elites e começaram a fomentar as estruturas das organizações que, por fim, agem dentro e fora do sistema (carcerário brasileiro)”.

Sobre a chacina penitenciária da região Norte, o especialista disse que a brutalidade das execuções seria um aspecto cultural. “Até onde sei, a facção do Norte é mais forte que a paulista no Amazonas e, por isso, resolvem as coisas da forma que as coisas por lá são resolvidas (ilicitamente) na faca. Não posso prever, mas imagino que o grupo de São Paulo não vá retaliar a facção rival, que aparentemente usou a violência para facilitar a fuga de alguns presos”.

Concluiu que “ninguém pode afirmar o que pode acontecer, categoricamente. O Brasil é muito grande, tem muita cultura, até para a morte.”

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