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Ponto de Vista – As expectativas que nos destroem

12/09/2017 11:24 AM / Alfredo Henrique / Atualizado em 12/09/2017 11:25 am

A menina sabe responder às perguntas da professora, mas o frio a impede de conseguir provar isso no quadro negro. Como não tem luvas, suas mãos ficam paralisadas, deixando a dona Norma irada. A mulher chama a criança de burra, fazendo a “alegria” dos cruéis colegas de classe.

Quando é convocada para ir à frente da turma toda, só consegue se concentrar nas mãos, que enxerga como se fossem patas de galinha tiradas de um freezer. Desde a primeira vez em que não conseguiu segurar o giz, quando encarou o primeiro Inverno na escola, os “convites” para a garota se dirigir à frente de todos se tornaram diários. Norma achava que a menina era uma rebelde e, por isso, testava a imaginada audácia da estudante constantemente.

“Menina, venha aqui responder a este teste de matemática”, dizia.

As mãos da criança até transpirariam de nervosismo, se não fosse o frio que as paralisava, juntamente com a certeza de que seria humilhada mais uma vez, mesmo sabendo responder às questões do quadro.

Quando Norma se cansava de ver o giz cair no chão, pegava uma régua de madeira e fazia com que a franzina menina se aproximasse com as duas mãozinhas esticadas – isso provocava um êxtase na sala, como em multidões que acompanhavam execuções públicas num passado nem tão distante assim.

“E segura o choro, pois do contrário contarei aos seus pais sobre sua falta de respeito”, dizia a professora.

A criança voltava para sua mesa com ambas as mãozinhas vermelhas, marcadas com o formato da régua que, maldosamente, esquentava as mãos da garota por um tempo. Ela aprendeu a conviver com um vácuo entre a garganta e o peito, achava que isso acontecia por causa do monte de lágrimas guardadas dentro dela.

A menina, que aqui nestas linhas não tem nome, poderia ser muita gente. A escola e a professora Norma também. A frustração resultante das expectativas – até as mais aparentemente banais – seriam evitáveis se, de fato, parássemos de imaginar o que os outros são e começássemos a viver em paz primeiramente conosco. Está difícil perceber como algumas pessoas são frias.

Alfredo Henrique

Chefe de Reportagem da Folha Metropolitana

alfredohsgomes@gmail.com

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