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Ponto de Vista – Caminhar à noite

17/05/2017 9:27 AM / / Atualizado em 17/05/2017 9:27 am

Trabalho perto da Estação da Luz e tenho o privilégio de poder ir de Metrô. Nada de congestionamento, de gasto com estacionamento, cansaço no trânsito. Na minha opinião essa é a forma correta dos trabalhadores se locomoverem numa cidade como São Paulo. O século XXI é o século do transporte público, assim como o passado foi do automóvel.

Hoje em dia cada carro parado nas marginais ou nas avenidas com uma só pessoa é antiquado, ultrapassado. Mas a grande questão é a qualidade do transporte público. Com raras exceções, é uma tortura que as pessoas encaram todo dia. Filas, atrasos, superlotação, ônibus caindo aos pedaços. Todos os dias um problema, mais um atraso até chegar ao trabalho. Mas eu quero falar de um outro problema que nos impede de viver a cidade plenamente, como cidadãos.

Eu desço na estação Luz e caminho algumas centenas de metros. Sim, enquanto está claro, dia. À medida que anoitece, aquela região, que é linda, vai se tornando um perigo e ninguém se arrisca caminhar por ali. Não estou falando da noite, da madrugada. Estou falando das seis, sete horas, quando a gente sai do trabalho. A Cracolândia, que sempre foi uma ferida, é hoje uma ameaça real, concreta, violentíssima. Durante o dia a gente faz de conta e anda no meio de seres humanos alucinados pela droga, pela miséria, pela doença. É impressionante como as lojas funcionam, o comércio sobrevive naquela loucura. É impressionante como a gente olha pela janela e vai se acostumando com aquele cenário.

Recentemente ouvi mais promessas, ameaças, bravatas. Vamos ver o que acontece desta vez. Das outras não aconteceu nada de bom. A questão não é simples, não é só de polícia. Aquela região foi se degradando debaixo dos nossos olhos; como várias pelo Brasil, haja visto o Pelourinho (em Salvador), um dos lugares mais lindos do mundo, que sofre intervenções, melhora e volta a decair. Mas, em algumas cidades, o Centro voltou a ser o que era, os prédios foram reformados, as pessoas voltaram a alugar os apartamentos.

Torço muito pra que a gente possa um dia assistir a um concerto ou um espetáculo de teatro, à noite, e caminhar sem medo até a Luz.

Luna Alkalay

Filósofa, de Milão, naturalizada brasileira e paulista de alma

lunaalkalay@hotmail.com

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