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Ponto de Vista – Passando a mão na cabeça do criminoso

01/09/2017 9:49 AM / Alfredo Henrique / Atualizado em 01/09/2017 9:49 am

Usar transporte público – em especial ônibus – é uma necessidade sofrível para grande parcela da população. Quando as linhas funcionam adequadamente, na medida do possível, conseguir um assento é ganhar na loteria e, na maioria dos casos, os trabalhadores acabam indo em pé, sendo esmagados.

A cena, infelizmente, é rotina e pode ficar ainda pior: graças à presença de criminosos forjados dentro da deprimente cultura do machismo.

Abusos ocorrem rotineiramente em todo o País e, também, dentro do transporte público. Os abusadores se aproveitam da superlotação para molestar – física e psicologicamente – mulheres. Quando percebidos, podem usar a desculpa de que o lugar está apertado e que a “encoxada” ou a “mão boba” ocorreram acidentalmente.

Certa vez ouvi um policial afirmar que “o diabo, na terra dos homens, é santo”. A afirmação me veio à mente nesta semana após ler que Diego Ferreira de Novais ejaculou em uma passageira, dentro de um ônibus, na Avenida Paulista. Porém, a cena descrita, pesada e revoltante, não convenceu o juiz José Eugenio do Amaral Souza, que soltou o criminoso – que já foi indiciado outras cinco vezes por, vejam só, crimes sexuais.

A nova lei de crimes sexuais enquadra como estupro até um beijo forçado. No entanto, o magistrado afirmou que “não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco do ônibus, quando foi surpreendida pela ejaculação”. Ou seja, como o criminoso – que já está nas ruas para cometer mais crimes – não tocou na moça, ele não pode ser acusado de nada.

Dados do portal Fique Sabendo indicam que 54 de 55 casos de abuso sexual, ocorridos no Metrô em 2016, não foram registrados como crime pela Polícia Civil. Os números ilustram a falta de bom senso das autoridades que, ao passarem a mão na cabeça de abusadores, garantem a falta de segurança das mulheres. Os precedentes de impunidade são garantia de que casos, como o da ejaculação na Paulista, podem virar rotina.

Alfredo Henrique

Chefe de Reportagem da Folha Metropolitana

alfredohsgomes@gmail.com

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