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Se o áudio não é claro, o escárnio do apresentador é transparente

10/11/2017 9:13 AM / Editorial / Atualizado em 10/11/2017 9:13 am

O Brasil nunca foi e não é uma “democracia racial”, como muito assim defendem e desejam. E quando esta máscara cai e se assiste a um comentário explicitamente racista, se percebe quantos brasileiros se camuflam por trás de discursos hipócritas e politicamente corretos, mas que não revelam sua verdadeira face. Como é o sugestivo caso do jornalista William Waack. Em um vídeo vazado na internet e que viralizou, dá para perceber o apresentador do Jornal da Globo dizer ao seu entrevistado: “É preto. É coisa de preto”, depois de se incomodar com a buzina de um motorista, durante um link externo.

Há falta de clareza no áudio, mas é transparente o escárnio contido nele. A frase é curta, mas é extensa em significado. E vem de um profissional respeitado, elogiado correspondente de guerra e referência para muitos que almejam trilhar a profissão. Waack é tudo isso e muito mais. Mas é racista, como seu curto comentário o revela. É apenas mais um dos personagens deste Brasil das intolerâncias baseadas na cor, na identidade sexual ou no caráter religioso.

A atitude manifesta por Waack, de ostensivo desdém com base na cor do outro, é um tapa na cara do bom senso e uma ode à intolerância. Sua galhofa fez rir seu convidado, talvez não por compartilhar da mesma opinião, mas para não chorar por tamanha vergonha alheia. Ou não é este o sentimento que se deve ter ao testemunhar a frase dita pelo jornalista com tamanho desembaraço? O racismo puro e simples, banal ou singular, às claras ou enviesado é observado no Brasil a todo instante e em diversas situações. E, se há algo de bom na indefensável postura do agora ex-âncora da Globo é que, por intermédio dele, o assunto veio à tona e gerou debate. E como bem lembrou o moralista e ensaísta francês Joseph Joubert (1754-1824), “é melhor debater uma questão sem resolvê-la do que resolver uma questão sem debatê-la.”

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